segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Agora sim a velha caminhava, apenas ouvindo sua consciência primordial. Arqueou a vista e notou, muito, muito distante, sombras. Poucas. Sua conversa consigo mesma fora afetada por murmúrios.
-Irei até elas.
Deparou-se com grandes tecidos sem cor, cortados do mesmo tamanho, ao tocá-los percebia como delineava traços, diferentes dos que sentia nas árvores às vezes tão velhas quanto ela. Seguidamente as marcas se repetiam. Tinham graça. Mas bom mesmo é abraçar uma companheira de tempo e sentir.
Quando passou desse lugar, grandes rodas se entrelaçavam movidas por seres sem rosto, silenciosamente. Como chegaria àquelas vozes e seus donos? Deveria ela continuar? Poderia continuar? Acocorou-se. Já ficara angustiada algumas vezes há um quando sem lembranças. De costas um dos homens lhe apontava em uma direção.
- Devo seguir este caminho?
O lugar dos ouvidos dele era despreenchido, arrancado, se bem notado. O apontado era bem entre duas rodas. Fizera o incalculável, não por superstição, mas por que aquilo? Era algo tão importante ? Talvez tivesse superstição: agachou-se e passou pela brecha. Entre elas suspendeu o pé e passou por outra. Untou as mãos e outra. Outra. Outra. Outra.
- Ainda estou passando?
Nuca tivera pés tão grandes.
Era como se todo seu corpo tivesse parte daquela engrenagem. E agora, onde estaria? Nem toda seu a experiência de afugentar e, por algumas vezes, correr dos cães zoadentos poderia lhe ajudar, não tinha espaço. Tudo começa a lhe encher, inchar, crescer. E nesse momento não sente mais seu pulsar. Sua força. As engrenagens não paravam, giravam, giravam e o homem que lhe apontara o caminho ficou muito atrás.
Seu rosto... A velha vira seu próprio rosto. Reconheceu sua profundidade. Estava engrenada. Seu rosto em todos os cantos, via-se em pedaços.
Teria sido melhor ficar longe disto? Como o primeiro idiota que tinha visto queria obrigar-lhe?
Seus rostos se reconheciam. A velha abriu a boca e gritou. Sua voz sobressaiu aos cochichos. Fechou os olhos e escancarou ainda mais sua boca. Estourou. Virou terra.
As pequenas vozes ainda estavam lá. Aí a velha virou pó.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Que as lágrimas corram.

É estranho, não é só do vazio que reclamo. Eu estou triste, é difícil para eu aceitar isso. Nesse momento torno-me uma espécie de lacuna, tento pescar nas lembranças algo que me faça feliz. Mas é vão. Não, a tristeza não me tomou pouco a pouco, como eu quero acreditar, eu não fui me decepcionando com alguma coisa até achar o mundo uma bosta. Eu sou uma merda. Cheguei a essa conclusão de súbito. Assim como me veio à felicidade implodir, a tristeza não tem dó. Eu quero que as lágrimas corram no meu rosto. Mas não choro. É possível saber de onde vem isso? A solidão já passou longe. É esse momento sozinho. Ele me fez o que? Não sei quê. Não é um vazio de pessoas. Estou no leito do meu lar, pessoas me cercam e, apenas certas. Também não to escrevendo pra fugir. Eu estou escrevendo por que isso é forte. Suicídio? Só o pior.

Devo escrever risos, estampar sorrisos. Não, eu vou lamber essa escuridão dedo a dedo. Como um gato toma seu banho. Vou engolir tudo, só pra saborear. Não pra estar dentro de mim, mas pelo sabor sim. Vou passar minha língua na persistente sujeira embaixo da unha, vou passar os dentes nessa infame.

Vou rir de minha tristeza, sagazmente. Não tem a ver com paradoxo. É infelicidade por infelicidade, sentimento mau a debochar de outro. Comerei os dedos e em grandes bocadas o braço. Vou arrancar cada dedo do meu pé. E quando sobrar apenas o rosto, toda a tinta se desfará.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Vestuário fluvial dourado.



Êta!
Êta, êta, êta
É a lua, é o sol é a luz de tiêta
Caetano Veloso





Caminhei obsoleto sem a certeza de encontrar novos corpos ou novos seres. A proposta era descartável para meu tipo de sede. Transbordar em seres é descapar-se. É ser muito mais eu e muito mais os outros. Minhas pernas escolheram em deixar pegadas no oceano invés de embrenhar-se em busca de um gole disto para mim.

Serenou, era um presente? Um sinal? Uma prévia que despontava dois momentos antes. Ela precisava gritar, a prévia. Pequena luz atingiu meu ser. Trocou finamente. Duas palavras, uma deixa. Foi lâmpada, mas era outro sol a encontrar-se com o meu. ”Salobra ou insípida, estarei esperançando.”. Meus olhos coloridos, meu corpo multifacial estavam vestidos para Oxum, estavam vestidos de Oxum.

Com ela, desnecessárias afirmações sobre este barro que todos vêem. Ela alcançou todo meu ser e nesse conglomerado de alhures, irradiava. Deixem-me contagiá-los, é o certo. Deixamo-nos contagiar. Não houve escolha. Vapores dos mais comuns carregados das exalações mais profundas. Sóbrio de sede fiquei reticente ao toque dos lábios, até onde eles iriam? Noite adentro. Manhã adentro. Não tão aquém: dentro de mim. Por abrir e fechar de olhos enquanto o sol ainda crescesse áureo.

Destemporado o aquilo do ir chegou antes. O pequeno espelho se foi, meu motivo de não vê o que sou. E os de todos estes outrem? É que eles não o possuem ou são demasiados grandes.
Mas eu sei o que sou: meu reflexo nas águas, minha estada com a dançarina dourada. Basto-me. Não, não me basto.


Sustento-me.

Lápide póstuma de moldes da taverna

Estou sentado em uma cadeira com braços e pernas amarrados, acabei de tomar um balde com água gelada com cubas de gelo dentro. Um homem saindo den’da escuridão com um alicate puxa meu indicador e pergunta coisas.
- Eu não sei, não sei! (Não acho)
Essa bomba no meu peito bate desinforme, as cordas estão me prendendo mais e mais estão, me serrando; essa lâmpada me cega. Apesar da fração de segundos eu senti o alicate cortando minha epiderme, minha derme, alcançando meus músculos até as laminas encontrarem-se nos meus ossos. Um dedo amputado, um soco, um pescoço quebrado. Reajo da mesma maneira: concentro-me nas angustias e não entendendo nada.
Minha respiração está ofegante, um pedaço verdadeiramente meu sumiu, ao olhar para cima vejo o rosto do meu inquiridor: sou eu.