sexta-feira, 16 de abril de 2010

Soneto da vívida esperança

* A arte é de Bernini



O sêmem perdido é o abraço do frio
Busca por alguém que preencha um vazio
Ou que ocupe um espaço
Sobretudo que seu sexo seja gostoso e vasto

Memórias fundem-se com imagens de agora
Películas daquilo que deveria ser uma foda
Minimizados ao gosto da verdadeira iguaria
Sal do corpo, ilustre orgia

O que por tudo aflora
Tem gozo atrás e fora da porta
Profundo eu em partilha

Na libido em potencial acredita
Todo ser pode se satisfazer com quem fica
Basta dar-se com vida

terça-feira, 23 de março de 2010

O herói destinava-se a rasgar o céu com sua espada de aço, ergueu-a e alinhou seu rosto para diagonal de si. Mira fixa, caminhou no sentido afora leito. A água era tão espada para si quanto o braço para a espada. Córrego perene, mesmo sem pernas de herói, mesmo sem céu, que pesava o andar, mas garantia o refresco.
O herói suspendia suas pernas com destreza e alívio e pressão e calor e alívio e pressão e calor. Ao fim do primeiro ciclo, primeiro passo já se encontrava cansado. Revigorou forças, olhou novamente aquela imensidão e prosseguiu adiante. Segunda pisada acreditou que o fluxo entre seus braços e suas pernas era desproporcional. A espada não lhe corroia as forças como o atravessar o córrego. O córrego era tão mais suave que o metal, suas extensões aliviavam os calos do herói a toda vez que penetravam e saiam em retaguarda pelas botas do herói.
Sem tirar os olhos do céu ele caminhava. Olhos para a diagonal, seu caminho fazia algo. Uma bela silueta nas águas. Uma bela silueta no vento. A do vento ia à frente, demarcada pelo aço da espada, a do córrego um pouco a frente do que viria atrás. Mas apenas nas águas se tinha a possibilidade de fazer várias. A linha no vento não se aperceberia, bastava que se olhasse para baixo para desenhar diferente a da água.
Mais próximo estava do céu. Isso ele enxergava. Subia algo, mesmo desgastado. O maior sintoma foi quando percebeu a água do córrego nos seus pés. Já não estavam nem na canela. Poderia dirigir-se para qualquer lugar agora. Tinha a idéia do que foi para ter sido, para ter chegado. Seu braço quinqüagenário ainda em riste, já não sentia a curva do ar em movimento. Ouvia-se apenas um ruído como da força do ar passando por um cano oco. Um cano oco em diagonal para a imensidão do azul-cordefinida.
Valeria a pena o próximo passo além córrego? É que havia azul demais na vista do herói. Queria o prata de sua espada, essa seria a cor do céu quando o afligisse com o aço firme. Todo prata deposto o todo azul.
Flexionou os joelhos para o grande salto. Contraiu-se mais, nada que chegaria a um feto. E mais, e quando seria hora? Foi jogado afora leito. Sem pernas, sua espada fincou em algo firme, seria o céu? O leito ainda estava azul-corindefinida.
Só se ouvia o som do vento entrando por dois canos como se fossem pernas. Passando por um tronco, como se fosse o tronco. Regressando de um cano, como se tapado por aço de espada. Saindo de algo como um pescoço. Decrépita madeira se desfez em pedaços.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Gota a Gota


As pedrinhas jogadas no balde fazem a água transbordar e cair na terra seca. A semente já foi jogada. Logo nascerá. Os frutos podres fazem o ar ficar mal cheiroso e afasta tudo que há de bom no entorno do balde. Os urubus rondam o ambiente, atraídos pelo odor. Os galhos fétidos da maldita erva trepam no balde e lhe escondem a luz e o calor do sol. Esfriam a água. Pequenas gotas de chuvas temporárias tentam manter o nível da água. Mas logo novas pedras são jogadas e a erva ganha nova força e novos frutos. Os espinhos duros e enferrujados espetam sem dó. Pequenos furos começam a se desenhar na superfície do balde. A ferrugem deixa o recipiente doente. Novas chuvas até tentam alimentar a erva buscando manter a vida do pobre balde. Em vão. Volta a trabalhar jardineiro. Pega a tua enchada e teu rastelo. Arranca a erva. Tira as pedras de dentro do balde. Deixa as núvens de inverno encherem o balde. Deixa o sol do verão aquecer a água. Deixa as coisas boas voltarem pra perto do balde. Mas se nada disso tiveres coragem de fazer... tira o balde do teu jardim. Não deixa ele se despedaçar. Prefira a saudade aos meros vestígios.


Ted Sampaio

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Pronome Vírus



Quais foram as palavras que você disse mesmo? Não sei, todo meu pensamento de desarmonia consolidaram-se nela. Eu, cigana também dissimulada, joguei meus búzios e já sabia o que aconteceria. O tabuleiro só provou aquilo que sei há muito: meu lugar é onde eu quero. Toda vez que essa profecia não se cumpre, não importa o lugar, não importa a quantidade de almas a serem integradas à minha pelo saber feito, eu destoou, porém não descoloro. Mesmo em fundo de quintal, não importa se é a melhor tradução de mim que está sendo cantada. Retraio-me todo em fúria, pois minha única qualidade é ferida: a capacidade de escolha.

Fizeram-se trevas em meus olhos daquela maneira que só você vê. Isso é imoral ao momento que te desfaço de teu único viés de carrossel enquanto me pinto e me visto como todo sol me implica. O sol não implica em nada disso. Pinto-me e me visto sem nem saber por que. Sei porque me visto.

E continuo a beber. Minhas mãos não estão frias, meu coração não está quente. E me encho de ti a cada olhar perpassado. Está tudo claro para os réus. Esse crime me sufoca tanto quanto eu a ti. Vamos todos morrer. Mas eu já fui morto muito antes de chegar aqui. Muito antes de me levantar decidido ao que fazer naquela tarde nublada. Eu poderia mudar facilmente para a moda. Isso não me machucaria. Não arrancaria meu cérebro nem desfaria meu corpo de mim. Não seria uma alguma coisa sem leito. Mas eu sentei e bebi do que gostava, pelo que gostava como não gostava.

Engulo o sapo pouco a pouco, a cada sorriso, piada, copo de cerveja... Mas eu sei que você sentiu o odor de meu veneno. Espero que não sufoque, pois ainda não destilei uma gota. É por isso que mereço morrer, mereço viver. Crueldade viva ensinando a como viver. Danço e canto.